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REFLEXÃO DE UM ABIÃ

São textos criados como reflexão sobre o ser humano e seus mitos. Com um olhar peculiar de quem vem procurando caminhos e explicações sobre a existência através da diversidade. Difundir esses textos via rede, foi um apelo de alguns amigos que acatei com muito cariinho, e me servira como laboratório para projetos maiores, portanto espero que gostem, façam seus comentários, indique a outros amigos ampliando a rede para que os textos ajudem de alguma forma aqueles que como eu, procura ler e reler caminhos trilhados.

domingo, 14 de março de 2010

HOMENS A UMA VIGILIA - Mulher Mito da vida


HOMENS A UMA VIGILIA - Mulher Mito da vida
Desculpe-me as mulheres, mas, esse “dia Internacional das mulheres” meu texto é dedicado aos Homens. Não é nenhum manifesto chauvinista não se preocupem. Mas vejo aqui uma oportunidade de nos reencontrarmos com a natureza, com a anima, com a espiritualidade. Em suma o encontro com a Deusa, que na maioria das mitologias representa a natureza. Convoco todos os homens para que façam uma vigília a fim de apurar seus olhares em busca de um homem melhor. Faz-se urgente o equilíbrio do espírito, vivemos numa sociedade que nos distancia cada vez mais da nossa natureza, dos elementares que movem nossa alma, o que gera conflitos existenciais, e desavenças em nossos relacionamentos, nos fazendo perder a magia do amor, tanto para conosco quanto para o próximo. Vivemos num momento em que temos que conciliarmos nosso espírito com a natureza, (A Deusa).
Existirão os que questionaram de “o qual a contribuição para avanços sociais”. Afirmo que não haverá avanço social se não nos reencontrarmos com nossa individuação. A cultura judaico-cristã que prevalece na nossa sociedade brasileira tem como símbolo mitológico o Deus que representa a sociedade. Segundo Joseph Campbell “E quando se tiver uma mitologia que acentua um deus, e não uma deusa tem ai uma religião que acentua a sociedade sobre a natureza, Então com a queda a própria natureza é amaldiçoada”. Temos na história da humanidade formas de exterminar a natureza. Uma delas foi o genocídio de mulheres acusadas de feiticeiras, que foram levadas a fogueira em nome Deus, sobre o pretexto de manterem-se as ordens sociais. O que eram essas mulheres, se sacerdotisas de seitas celtas, que cultuavam sua espiritualidade junto com elementares da natureza e mais uma variedades de povos ditos pagãos, que viam na natureza formas de encontro com espírito.
Quando vemos a devastação que se faz da natureza, e os efeitos que causam no meio ambiente, notam-se os mesmos males nas relações sociais. Esta inserida na tradição não confiar na natureza, porque ela decaiu, pecou. Nossa vida tornou-se uma mistura de Deus e o Mau. A origem de uma intolerância religiosa com os mais variados povos, que cultuam seus elementares. Aqui não foram diferente quantas histórias vemos nos ilês espalhados pelo Brasil, onde nossas sacerdotisas Yalorixas mulheres exemplos de lutas e resistências verdadeiras guardiãs da magia da natureza, harmonia da vida com o espírito, a Deusa, em nosso panteão africano, representada por varias deusas, nossas Yabas, nossas mães. Nossas sacerdotisas são verdadeiros ícones, e apresentam o melhor do anima elemento feminino, bem definido por Jung. O que fascina na mitologia é a universalidade. Seja ela de Afrodite, deusa dos oceanos que incumbe a Psique, ficar presa na rocha a espera de seu casamento com a morte, ou a mais variada mitologias que revelem a mulher como e suas ligações com elementares da natureza.
As mulheres por conta desse domínio patriarcal sempre foram subjugadas, o que na maioria das vezes se organizavam escondidas, uma forma de protegerem seu poder para que não fosse dirigido pelo homem. Tudo o que há na natureza temos em nossos corpos. E a mulher através da anima tem esse poder nos seus corpos é portador de todos esses encantos, enquanto os homens têm de adquirir esse poder. As relações sociais oriundas do esquema escravagista fizeram com que criassem uma estrutura social e religiosa, onde as detentoras desse conhecimento ficaram nas mãos de quem são de direito as mulheres.
A caça as bruxas ocorrida na idade média, chegou aqui, assim como a escravidão a inquisição em tese foi abolida. Todos sabem ainda existem preconceito e intolerância, ambos as ações vindas de uma mesma matriz, européia, patriarcal branca e dualista, cuja cultura mítica é o Deus, que vive lá no céu e nós aqui na terra, e a natureza fica no meio desse jogo entre o sagrado e o profano, o bem e o mau, o puro e o pecado. Aceitar essa vigília se disponibilizar a olhar e sentir a anima começa a ser uma missão nada tênue sentiremos o solo firme da racionalidade, lógica e da razão abalar-se sobre nossos pés. A mulher reconhece mais o animus, elemento masculino, como muito mais facilidade que o homem, o anima isso tudo por terem a consciência da energia em seus corpos.
Mas o ato de observar se torna muito mais complexo quando nos voltamos para dentro, onde também necessitamos de claridade. Luz é intrinsecamente ligada à mulher. A observação e a luz se completam ao contrario não seria possível ver. Mas para observar-lhe o detalhe, temos que olhá-lo atentamente, com carinho, afeição e ternura. Como vemos perda das qualidades e da energia feminina na sociedade de hoje constitui um problema psicológico premente. Atinge dolorosamente a vida emocional de homens e mulheres.
Se continuarmos a viver sob o cunho de uma cultura patriarcal, estaremos condenando a humanidade a seu mais profundo limbo. Existem vertentes religiosas e morais que tem como filosofia banir o pecado e o mau dentro de uma tradição moldada por e para os homens que garantem a sua soberania e poder. Esse embrutecimento da humanidade, com base nessa visão dualista e discriminatória causadora de guerras e genocídios em toda nossa história. E grande responsável do seu descontentamento, solidão, sensação de falta de sentido, mau humor e violência. Contra a Natureza, contra si, sobretudo contra a Mulher. Através da valorização da força bruta e da conquista de territórios, geram um grande desequilíbrio dentro e fora de nós.
A terra como uma entidade viva. E não há nada na terra que não exista dentro de nós, as energias que circulam no olorum, coabitam em nosso corpo. Essa é a idéia da mitologia básica que foi completamente eliminada da Bíblia desde o livro de Genesis, onde vemos isto: ”Tu que é feito do pó e ao pó retornaras”. A terra não é pó. A terra é mãe. Sendo assim olhe, para as mulheres que conhece, mas antes busquem na lembrança, todas as menções de sabedoria e vinham de nossas avós, sim essas velhinhas, quase na maioria analfabetas, mas detentoras de sabedorias, que nos indicam caminhos até hoje, isso é sinal que a sabedoria da natureza atua nessas amadas mulheres.
Mas para observar uma mulher temos que nos livrar dessas amarras seculares, para isso indico uma imagem citada por Goethe: “No cimo das colinas reina a calma, no cimo das arvores, mal se tente um sopro. Os passarinhos silenciam nos bosques. Apenas espere e você silenciará”. Como dizem os Taoistas, no qual nos redemos a natureza e nos entregamos a ela. Ou nas culturas primitivas, nas quais as pessoas se apóiam na natureza. Perceber que a natureza é boa provoca uma transformação total da consciência. Nunca esqueçam o universo esta mais próximo do que se imagina, ele esta nas mulheres com as quais convivemos, nelas pulsam essa divindade. Fundamento do mistério supremo, fonte transcendente e energia do universo, que é também força misteriosa da vida, própria de cada um – e de todos.
Ao olhar para essas mulheres com seus olhos cheios de afeição, de amor, estabelecerá uma relação imediata. Quando for capaz de olhar uma nuvem com olhos que estão vendo pela primeira vez há então uma relação profunda, o fator mitológico primordial é o que Jung chama de coniunctio oppositorum, a conjunção dos opostos. Fundindo-se num belo equilíbrio entre si, uma dança. O prazer de um casal dançando é o do par de opostos numa relação harmoniosa. Façamos nossa vigília sempre e diariamente, para resgatarmos em nossos corpos à volta a natureza, a natureza feminina que ocorre naturalmente dentro da mulher. Assim nossas mulheres não precisarão fazer vigílias contra a violência sofrida por nós homem, e sim se encontrarem para celebrar a existência da Deusa.
Dedico minha vigília as divindades que
fazem de mim um Homem melhor:
Juliana, Carolina, Camila e Guiomar (minha mãe).

Sérgio Cumino

Da Benção da Mãe Preta ao Asé do Zumbi do Palmares


Da Benção da Mãe Preta ao Asé do Zumbi do Palmares
A mitologia Africana tomando as praças suplantando: signos da resistência, bandeiras ativistas e homenagens alegóricas – e situa-se para lá de nossas compreensões e sendo reflexo dos nossos inconscientes indicando caminhos e transcendendo-nos ao rumo de nosso Asé, presenciei em dois momentos distintos um 30 de setembro de 2009 AGUAS DE SÃO PAULO - LAVAGEM DA MÃE PRETA – e 20 de novembro de 2009 - DIA DA CONSCIENCIA NEGRA – LAVAGEM DE ZUMBI DOS PALMARES, praça da Sé em Salvador, ato que combinou com a Caminhada contra a Intolerância Religiosa também na Bahia.
A lavagem é um ato simbólico que representa a limpeza e a purificação da cidade e de seus habitantes. Estava nesses eventos por na ocasião trabalhar numa revista com a linha editorial ligada ao publico do Candomblé, mas mesmo insistindo, em nenhum dos eventos citados despertaram interesse de cobertura por parte da revista, se quer uma nota, seja pela importância política ou pela questão mítica, mas para mim a presença não foi em vão. Me sinto com uma divida pessoal com os organizadores de São Paulo assim como o CEN (Coletivo de Entidades Negras) e mesmo desligado da editora, insisto em repartir minhas reflexões que procuro me ater ao surgimento a evocação de mitos, ligados ao nossa ancestralidade em meio a um ambiente sócio-político.Parodiando o modernista Oswald de Andrade talvez o biscoito que produzo não seja tão fino assim. Deste modo partilho com vocês leitores e membros do Correio Nagô e demais convidados. Quem sabe as Reflexões desse Abiã despertem interesse em outra editora e torna-se artigo de uma nova revista.

Passe pelo largo do Paissandu, no centro da cidade de São Paulo e vai se deparar com essa santidade ESCULTURA DA MÃE PRETA. Com seus lábios grossos, formas avantajadas, gestos delicados, olhares ternos a essência da beleza da MULHER, a beleza da alma, da mãe, da fertilidade, e o que é mais enfático a valorização da vida e como uma Deusa representa a natureza. Ai vem um leitor desavisado e protesta – “Que santa que nada, ela é uma criação de um artista qualquer”. E como um artista abusado que sou, retruco, a esse representante da mediocridade dualista, para ele, uma Santa, tem de ser personagem que viveu na História e que se dedicou a Igreja ou coisa que o valha e necessita de possíveis milagres ou condições sociais e até política, para ser canonizado pela Santa Madre Igreja.

Esta é uma das diferenças que as religiões de matrizes africanas têm que é a consciência de que nós, humanos, não somos os únicos seres do universo que tem personalidade, presença e mesmo subjetividade. Para nós do Asé a Mãe Preta realmente é um símbolo Mítico não pela História de sua vida e sim pelo Mito que se tornou. Há alguns irmãos de santo que somente a vêem como um símbolo (alegoria) da resistência a intolerância religiosa, mas combateremos quaisquer preconceitos quando a fé e as forças que a regem vir às ruas com suas belezas e seus mistérios, ou como diz Muniz Sodré –Melhor forma de combater o preconceito é o amor -. Mesmo se Mãe Preta representasse apenas o signo de uma resistência sócio-política, em prol das diversidade étnicas, já vejo aí um grande passo.

Voltemos ao “artista qualquer”, não é o primeiro e oxalá não seja ultimo, artista com ou sem religiosidade, onde sua arte conecta diretamente com as almas do Olorum pelos arquétipos do inconsciente ou como disse Shaun Mcniff o artista plástico Norte Americano “Há uma paisagem da mente que precisa ser alimentada pela paisagem real”. Pois bem, como em conversa com OFA Miran, Pai Beto, babalorixa do candomblé paulista e um dos organizadores do evento “Águas de São Paulo” que culmina na lavagem da escultura. “A MÃE PRETA que simboliza a maternidade, sagrada em nossa religião” aí perguntei O que ele imaginava - se chegou a passar pela cabeça do escultor que sua obra encomendada pela prefeitura da cidade de São Paulo viria a se tornar um verdadeiro mito?Com um sorriso revelador, disse não fazia idéia, mas que sua mão com certeza estava Abençoada pela Mãe Osun.
'Mãe Preta “(1955) escultura de Júlio Guerra -Largo Paissandu- São Paulo/SP-Brasil
Ao lado da Igreja N.Srª do Rosário dos Homens Pretos. Escultura 'MÃE PRETA'- é uma homenagem à Mucama que dava seu leite ao filho do 'Senhor', sendo que para isso, muitas vezes, era sacrificado seu próprio filho, para sobrar leite ao seu 'filho branco'. Com quase três séculos de existência, a Irmandade do Rosário dos Homens Pretos é uma referência para movimentos de consciência negra, ligados a igreja catolica, porque apresenta uma tradição religiosa que remonta aos tempos dos primeiros escravos.
A escultura quando aprovada para ser colocada na praça ao lado da igreja de certa forma era uma conquista de ações organizadas e toda a representatividade social da época, mas ela passou a ser um icone maior que uma expressão da história e o registro artistico da condição da mulher escrava no Brasil. Superou a alegoria o fato definitivo e ela tornou-se um mito, além das representações catolicas que fortalecem a igreja vizinha. O mito é a transcendencia a imagem da mucama amamentando, é uma sabedoria que vive em nós e representa a força desse poder, dessa energia, que flui no campo de tempo e espaço, fundamentando-se nos arquetipos de nossa ancestralidade.
A chamo de santidade uma por ser uma referencia a manifestação religiosa formada por indios e negros no seculo XVI em resistencia ao cristianismo e a inquisição no Brasil e outra como referencia a divindade que vem se formando, e o fluxo de energia e inspiração que fazemos circular.
Ha rumores dando tom de fenomento que começa a se delinear na capital paulista. A escultura em homenagem à Mãe Preta está começando a ser venerada com fervores religiosos. São freqüentes as velas acesas ao seu redor; bilhetes manuscritos pedindo graças e terços atirados no seu dorso. No dia da Consciência Negra foi coberta de rosas. Os padres da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, que domina o largo, não estão gostando; acham que as homenagens devem ser dirigidas à santa no altar. Dois detalhes: a escultura de bronze, instalada em 1955, a igreja foi fundada em 1711 e sua irmandade continua ativa; é uma das mais antigas do País.

O protesto por parte da igreja é até pertinente, que essas pessoas louvem os santos da igreja ali do altar do templo, afinal a escultura tem uma representação alegórica, mas o que parece sem sentido, faz-se mais significado do que se imagina. Surge ai um processo em que as relações do ego com os conteúdos do inconsciente, desencadeiam o desenvolvimento e uma verdadeira metamorfose da psique, o que de forma coletiva se encontra, nos diferentes sistemas religiosos e na transformação de seus símbolos. O que temos que atentar as pessoas à medida que vem crescendo sua devoção a escultura em busca de uma conexão com seu poder através do mito, torna-se uma relação organicamente relevante para vida dessas pessoas, como reflexos de suas almas, porta vozes de sua ancestralidade. A execução desses rituais centra o individuo, e a simples representação do mito, fazendo-os viver diretamente o mito.
Aquestão que a Mãe Preta foi além das palavras, da imagem, e ja aponta para alem de si mesma, o que podemos chamar de transcendencia. Devemos encontrar dentro dessa questão a sabedoria, não nos apegar a questão alegorica, como fazem alguns urbanistas, que torcem a boca quando se referem as oferendas deixadas aos pés da imagem, e sim encontrar os ensinamentos que enriquece nossa sabedoria pessoal, o sinal que nossa ancestralidade nos aponta com esses mitos urbanos é converte-los seus arquetipos num caminho próprio.

Ja a escultura do Zumbi dos Palmares de autoria da Artista Plástica Márcia Magno instalada na Praça da Sé na capital baiana já simboliza a história de luta e liberdade do povo negro.Como um ícone da resistência trás em si uma mítica inserida em seu signo e suas idéias que esta representada são reverenciadas como caminho que evoca nosso self espiritual a segui-lo a sermos levado a sua morada, que é nosso próprio coração, que é o mais profundo de nossa própria fonte espiritual. Quando ocorre a lavagem da escultura do Zumbi um ato ritual, extrapola a história e a sociologia, se vemos sua escultura e o ato da lavagem com duas metáforas assim sendo a ritualística (lavagem) têm conotações dos poderes espirituais que estão dentro do individuo. Não se louva a alma de Zumbi, e sim fortalece o arquétipo que o mito representa dentro de nós, por isso considerado o signo de toda uma raça, que tem ligação com a harmonização da consciência em si, em relação à base do ser na natureza, no corpo, que é em si uma manifestação do mistério. O ritual faz com que deixemos a interpretação histórica do símbolo numa posição secundaria dando relevância das formas simbólicas para nossa própria vida.
O Mito nos ajuda a reconhecer a profundidade do nosso ser, em suma a função principal dos ritos é orientar o individuo, levando a consciência onírica mais profunda e criativa, somado à consciência desperta que é critica, esse é o equilíbrio que buscamos o ASÉ!

Sérgio Cumino

*FOTO Mãe Renata

ÉTICA MOLECULAR




b>Ética Molecular
No decorrer da nossa história vivemos nos deparando com essas questões, como nossos organismos sociais, servem de fato a população. As indignações que menciona, partilho-as. Assustam-me mais quando ocorrem em sistemas menores ao nosso alcance, quando olhamos ao Macro sistema, com suas diversidades geográficas, de povos, culturas, de capital e etc. Um amontoado de complexidades e meandros que nos perdemos, na quantidade de forças atuantes e pelegas que imperam em nosso congresso. Mas o micro organismo, que revelam o que acontece em dimensões gigantescas ocorrem as nossas barbas por pessoas do nosso convívio. Sou chamado por organizações menores para formatação de projetos de cunho social, e vejo que muitas vezes se quer sabem como querem atuar, mas já tem brigas pelo poder interno, onde muitas vezes, me hostilizam por acharem ser uma ameaça a cúpula em exercício.
Nos anos 60 e 70 no auge da resistência, nos círculos intelectuais, discutia-se deviam empenhar-se por uma revolução da classe média (diga-se de passagem, quando se envolvem em causas sociais conseguem no mínimo mais representatividade) ou uma revolução operaria de fato. A pergunta era esse povo quer de fato, a tão sonhada democracia ou se seu sonho é serem burgueses? . Acho que o âmago da nossa questão esta ai. Vem à memória uma cena do filme Terra em Transe de Glauber Rocha , quando uma personagem interpretada por Jardel Filho, o jornalista e poeta Paulo pega o homem do povo, e quase aos delírios, falando diretamente para a câmera diz, - vocês querem ouvir a voz do povo – direciona o foco para homem do povo – fala povo! E o homem assustado se mantém no ensurdecedor silencio.
Vejo essa cena antológica, e que nada mudou, mesmo com a anistia ampla geral e irrestrita, do inicio dos anos 80, e ressurgimentos de frentes populares, até mesmo o nascimento do PT, como um partido ícone dessas lutas, tendo como base as manifestações dos operários nas greves do ABC paulista que abalaram de fato todas as forças. Esse alento mudou a cara do país. E conseguimos a tão sonhada Democracia, sonho esses de seguimentos muito específicos, e humanitários, porque nas feiras publicas, e reuniões familiares eram comuns quem defendesse a Ditadura Militar, e quantos declarados filhotes dessa ditadura ainda se elegem décadas depois.
Passamos 30 anos dessa mudança social, e vemos ainda não sabemos o que fazer com esse campo irrestrito que é a democracia?Ela nos mostrou que na sua amplidão de possibilidades, como Elder Vieira citou no seu artigo, caminhos para outras ditaduras que empacam a ação de fato democrática. Olhamos para os organismos democráticos menores, sindicatos, as organizações de bairros e associações de tudo quanto é tipo. São poucas as que de fato se preocupam com temas de responsabilidade social, inclusão e representação da comunidade junto ao poder publico. Na maioria são diretorias criando mecanismos para interesses próprios. Quantas ONGs não são criadas, e outras tantas investigadas, por serem mecanismos para colocarem as mãos na grana, seja de que origem for. O desejo de serem burgueses e de formas escusas continuam.
Essas pseudo-s organização vêem nas suas formas de lutar, aliar-se a candidatos, que profetizam ser o representante legítimo da comunidade em troca de seus votos, na maioria são esses que o amigo citou com repudio. Esses presidentes acabam sendo porta voz da falsa ilusão, e colocando no banco das assembléias esses sujeitos, que retornam as bases as vésperas da reeleição do próximo mandato. Lembro de uma vez encontrar uma desses paladinos comunitários, esse com o discurso afiado, detalhem uns são amestrados como mandam a cartilha, e parte da premissa que o povo é alienado, portanto meia dúzia de chavões é o suficiente para inibir o interlocutor. Retomando essa simpática liderança, veio me apresentar seu candidato, com seu folheto, (corpo a corpo) é trabalho das bases, depois de proliferar os versículos de seu magazine partidário com arrogância de sua “consciência política”. Causou-me certo asco, que precisei parar o discurso com uma pergunta: Sabe qual a diferença de sua atuação política e a minha? A minha desenvolvo ações de inclusão social, através de oficinas olhando nos olhos do participante, e buscando que ele reconheça em si seus valores. E você não passa de um cabo eleitoral, que faz do caixote de madeira da sua realidade, um pedestal para sua soberba.
Hoje vemos o segundo setor organizado, em questões de responsabilidade social, claro que movidos por motivos na maioria das vezes mercantis, mas o fato é que atuam nessas questões de forma mais profissional, e o que esta fazendo a diferença no país hoje. É esses empreendedores com a bandeira do comprometimento social, e o terceiro setor, os sérios, existem muitos que são. Vendo isso e a duvida do Elder que sabiamente a dividiu conosco, porque intui ser de milhões de brasileiros. Chegou a hora de fazermos um balanço de valores, dentro mesmo de nossas famílias, de nossos círculos, grupos, do que vemos como justiça social, e um senso de fato de comunidade, para iniciarmos não um macro revolução nesses valores, mas sim uma revolução molecular, com a atuação dirigida a melhor qualidade de vida de todos. Mudemos nossas células, para que assim, a ganância pelos privilégios do poder, não seja mais o objetivo de quem colocamos lá e sim ser um braço dessas forças. Portanto que nossas associações de mulheres, artistas, etnias, terceiro setor, fazendo sua parte, e criamos nossa revolução molecular.
Sérgio Cumino